Mia Couto nos recebeu no escritório da empresa em que dá expediente quando não está escrevendo livros.
Além de escritor, Mia Couto é biólogo.
Tem uma empresa de projetos ambientais que funciona numa casa na região central de Maputo.
Fala mansa, Mia Couto não se altera com nenhuma pergunta.
Além deste diário, participou da entrevista o jornalista português António Cascais, radicado na Alemanha e colaborador de diversas emissoras de rádio e televisão europeias.
A entrevista foi em 29 de outubro, um dia depois das eleições.
Mia Couto ainda estava com o dedo indicador direito sujo com a tinta indelével que comprova a participação no processo eleitoral e serve para impedir que se vote duas vezes.
Apesar dos compromissos, Mia Couto abriu meia hora na agenda lotada.
Além de escritor, Mia Couto é biólogo.
Tem uma empresa de projetos ambientais que funciona numa casa na região central de Maputo.
Fala mansa, Mia Couto não se altera com nenhuma pergunta.
Além deste diário, participou da entrevista o jornalista português António Cascais, radicado na Alemanha e colaborador de diversas emissoras de rádio e televisão europeias.
A entrevista foi em 29 de outubro, um dia depois das eleições.
Mia Couto ainda estava com o dedo indicador direito sujo com a tinta indelével que comprova a participação no processo eleitoral e serve para impedir que se vote duas vezes.
Apesar dos compromissos, Mia Couto abriu meia hora na agenda lotada.
Com clientes esperando na recepção, acabou falando por quase uma hora sobre política, Frelimo, democracia, os mitos em torno da África e um pouco sobre literatura.
O QUE ESSA ELEIÇÃO REPRESENTA PARA A DEMOCRACIA DE MOÇAMBIQUE?
A democracia...Acho que nos habituamos a ver a democracia em Moçambique como uma coisa que é feita com vários caminhos. O caminho desta democracia parlamentar, com essa votação por delegação política em alguém que nos representa é uma coisa relativamente recente. Moçambique viveu 33 anos de independência e metade desse período foi feito sem democracia. Foi feito com regime de partido único. Curiosamente, havia durante esse regime algumas instituições, vamos dizer assim, que funcionavam. Principalmente ao nível de poder popular, poder de base. Funcionavam com nível de envolvimento e participação que hoje já não ocorre. Não estou a fazer a defesa do regime monopartidário. Estou a dizer que, para avaliar o regime da democracia, a possibilidade de participação das pessoas naquilo que são seus assuntos de interesse não podem ser medidos apenas por este parâmetro. De qualquer maneira, acho que os moçambicanos querem este caminho, querem o caminho da democracia formal, da representação partidária. E isso ainda não foi conseguido. É um processo, e agora isso implica que o partido no poder tem que ter oposição. E essa oposição tem que ser criada, tem que haver um processo de fundamentar isso que são forças da oposição. E isso ainda está a acontecer em Moçambique.
NAS ELEIÇÕES ANTERIORES HOUVE ÍNDICE DE ABSTENÇÃO ALTÍSSIMO, ACIMA DE 70%. O QUE EXPLICARIA ISSO? UM DESENCANTO? FALAM QUE AS ELEIÇÕES ERAM REALIZADAS NO PERÍODO DAS CHUVAS E AS PESSOAS NÃO IAM VOTAR, QUE AS DECLARAÇÕES DA RENAMO DE QUE O PROCESSO ERA CORRUPTO E POR ISSO NÃO VALERIA A PENA VOTAR TAMBÉM TIVERAM UM FORTE IMPACTO NEGATIVO NA POPULAÇÃO.
Há sempre várias explicações. Algumas estão ditas por si. Um país como este não pode ter eleições no período das chuvas. Isso parece-me uma coisa do domínio do absurdo, mas este país não pode ter eleições onde elas depois não são realizadas. Depois há outras razões. Há razões... Não é um desencanto, mas as pessoas antecipadamente sabem quem vai ganhar e, portanto, não se sentem motivadas para essa disputa, para participar nessa escolha. E quando eu digo antecipadamente sabem quem vai ganhar, não estou a adotar o discurso da Renamo, que diz que as coisas já estão todas cozinhadas. Mas, de fato, a Frelimo tem um domínio absurdo sobre o que são as zonas rurais e as zonas urbanas. No princípio, logo a seguir à guerra civil, ao fim da guerra civil, a Renamo tinha ainda uma presença expressiva nas zonas rurais, aquilo que eram as autoridades tradicionais, os líderes locais, tinha uma ligação filial, de fildelidade com a Renamo. Isso foi sendo perdido e hoje a Renamo não representa nada.
O QUE ESSE DOMÍNIO TÃO FORTE DA FRELIMO REPRESENTA NA VIDA DO PAÍS? É POSITIVO, É NEGATIVO? SERÃO NECESSÁRIAS ALGUMAS GERAÇÕES PARA QUE AS PESSOAS PASSEM A ACREDITAR QUE O VOTO DELAS FAZ DIFERENÇA?
Sim. As coisas não acontecem porque historicamente não tem que acontecer de uma certa maneira. Acho que a Frelimo representou, e representa ainda hoje, a força que é capaz de criar a nação. Esta é uma nação jovem, é uma nação em projeto. Ela está sendo formada. Se o grande objetivo deste país é ter estabilidade, é ter uma unidade nacional para conseguir depois outras coisas, então provavelmente é preciso que haja um período como este que estamos atravessando para se criar os fundamentos, as fundações de uma nação nova. Essa é a razão principal pela qual as pessoas não votam tanto nos outros partidos. Evidente que também é um cenário que se repete muito em África. Aquilo que são as campanhas eleitorais contam apenas uma pequena percentagem, contam aquilo que são a criação de programas, o componente ideológico. Porque depois muito do que é feito para captação de simpatias é feito pelo fenômeno de troca de influência, pela distribuição de facilidades e cargos etc. Acontece também na América Latina, em todo o mundo. Não é uma coisa exclusiva nossa.
MOÇAMBIQUE É APONTADO COMO CASO DE SUCESSO EM TERMOS DE ESFORÇO PARA REDUÇÃO DA POBREZA. RECEBE MUITA AJUDA INTERNACIONAL. MAS JÁ SE OBSERVA UM FRACASSO OU O NÃO-SUCESSO DE VÁRIOS PROGRAMAS. MUITA GENTE DIZ QUE HÁ PROBLEMAS COM OS PROGRAMAS, MAS AS NAÇÕES DOADORAS TAMBÉM TÊM DIFICULDADE EM ADMITIR QUE FALHARAM. NÃO TERIAM A FORÇA POLÍTICA OU O DESEJO DE CORTAR PROGRAMAS IMPORTANTES QUE NA PONTA VÃO ACABAR AFETANDO A POPULAÇÃO. COMO SE SAI DESSE DILEMA?
Acho que, em grande parte, é um falso dilema. Porque o olhar sobre a África sempre foi o olhar entre aquilo que era o olhar completamente negativo e o completamente positivo. Deslumbrado e desencantado. África era vista sempre assim: de repente era um inferno, de repente era um paraíso. De repente era o regresso daquilo que é o sentimento de ligação com a natureza, de harmonia com o tempo. De repente é o olhar no sentido inverso. Mas nós também estamos a ser punidos por essa alternância de visões, que era a visão cor-de-rosa que noticiava Moçambique. Moçambique era visto como um bom aplicador de fórmulas. Essas fórmulas vinham de fora, não foram fabricadas aqui em Moçambique. E essa visão era uma visão disfarçada, que não correspondia à realidade. Mesmo quando ela era muito cor-de-rosa, muito positiva: Moçambique é o grande exemplo. Moçambique nunca foi esse grande exemplo. E o meu receio é que se caia no exemplo oposto. De repente Moçambique se converte num paradigma do mau exemplo, do incapaz. É preciso entender que esses programas, essas metas são feitos por nós sabemos quem. Banco Mundial, Fundo Monetário internacional, que depois recapitulou as coisas e põe esses são os grandes temas: a redução da pobreza, a boa governação, transparência etc. E sem eu querer questionar isso, a verdade é que não se permite que esses governos sejam avaliados por um programa interno, por uma agenda própria que eles contrem. Controem em consonância com o que são os valores dos doadores. Tudo bem, eu aceito isso, uma vez que eles se intitulam a si próprios como doadores. Mas eu acho que não se dá nem essa oportunidade e nem tempo para medir coisas que são impossíveis de serem feitas nesse curto espaço de tempo. Há nações européias que demoraram centenas de anos a fazerem aquilo que se pede agora que Moçambique faça em 10, 15, 20 anos.
O QUE O DOMÍNIO DA FRELIMO FAZ COM QUE A VIDA INTELECTUAL AQUI EM MOÇAMBIQUE. DIZEM QUE A FRELIMO DOMINA O QUE É A HISTÓRIA MOÇAMBICANA. É A DONA DA HISTÓRIA.
A Frelimo faz o que todas as forças políticas que são vencedoras fazem. Quem escreve a história são os vencedores. A Frelimo venceu a luta armada, a libertação nacional e criou aquilo que são os mitos fundadores da nação. Teve esse grande privilégio. Eu acho que, historicamente, de novo eu volto a este ponto, historicamente é preciso dar essa possibilidade. Porque os mitos fundadores da nação, como os da nação portuguesa, foram criados há séculos e séculos atrás. Do Brasil também. E se vamos questioná-los agora, alguns deles têm pouco fundamento histórico, tem pouca veracidade histórica, não é? Então a Frelimo teve que inventar uma história para o país, teve que sugerir esquecimentos. Sobretudo não é aquilo que é reivindicado como memória, o mais importante é aquilo que a Frelimo sugere que seja esquecido do passado. E isso é, digamos, nós temos que perceber que não há uma grande espaço de manobra para contestar isso agora. E isso vai sendo contestado à medida que há, que se criam elites que são capazes depois de terem estofo, bagagem para criar outras leituras do que foi o passado. Mas note que há uma coisa: estou insistindo sempre nisso porque essa leitura da história passada foi falseada em toda a África e foi falseada no sentido terrível de tornar África sempre um objeto vitimizado. África nunca foi sujeito de nada, é como se fosse, digamos assim, aquilo que é a retração daquela idéia fácil de que o passado era um passado harmonioso, a África vivia numa situação de paraíso, até a chegada do colonizador. Os africanos estavam todos sentados e reunidos à volta de uma mesma fogueira, à sombra de uma mesma árvore. Isso nunca foi verdade. África sempre viveu com conflitos internos, com elites que participaram na escravatura, participaram com cumplicidade no colonialismo, na escravatura e nos grandes momentos de sofrimento deste país. E o que está a acontecer hoje é só o prolongamento deste passado. As elites de hoje estão fazendo aquilo que essas outras elites fizeram no passado. Mas essa idéia de uma história dinâmica, com conflitos internos, não passa. Foi apagada em nome desta outra idéia de uma África mitológica, mistificada.
E NESTE CONTEXTO QUAL É O PAPEL DO MIA COUTO?
O que eu estou fazendo como escritor e como cidadão, onde eu posso ter intervenção, é alertar que estamos construindo uma mentira. Essa mentira algumas vezes é necessária, historicamente, porque há mentiras que, por consenso, dizemos: ok, vamos aceitar esta mentira à volta de um personagem, de um herói que nós queremos identificar e que é importante no sentido de criar valores morais etc. Portanto, é uma mentira negociada. Mas há outras mentiras que são fortemente inibidoras, nos paralisam e uma delas é esta que eu estava a dizer: a recriação de um passado mistificado é uma coisa terrível.
OS JOVENS EM MOÇAMBIQUE, NAS ZONAS URBANAS E OS MAIS ESTUDADOS, SENTEM-SE PARALISADOS. E A INCAPACIDADE DO GOVERNO DE CRIAR EMPREGO E RENDA LEVA A UM NÍVEL DE TENSÃO SOCIAL QUE PARECE UMA BOMBA RELÓGIO.
Sem dúvida. Essas tensões estão presentes e nós fomos surpreendidos, há ano e meio atrás, com uma revolta popular na cidade de Maputo quando foi feito o aumento dos preços dos transportes públicos. E isso está presente. Não creio que isso aconteça depois sozinho porque as pessoas acumularam a frustração. Isso é um território onde outros podem fazer alguma manipulação política e criar focos de conflito. Eles não procedem sozinhos dessa maneira por acumulação simples de miséria. Também há uma coisa que é preciso dizer com justiça: as pessoas esperam sempre que o governo faça. A capacidade de ter iniciativa, de criar respostas com movimentos sociais, com caminhos alternativos está também paralisada. Estes jovens estão paralisados interiormente e do ponto de vista daquilo que é a sua cultura. Porque aqui é assim: a relação com a política é vista como uma relação de familiaridade. O presidente é o nosso grande pai, os grandes chefes são os nossos tios, a nossa família. E nós pedimos ao pai que olhe por nós. É uma relação...qualquer reunião que vocês assistam, pública, as pessoas dirigem-se para quem está a dirigir a reunião, os processos políticos, quem tem controle dos processos políticos, é tido como um grande pai. É uma relação de parentesco. E isto liga-se com aquilo que vos falei antes, que é este sentimento de familiaridade. África é uma grande família, em África estamos nós todos ligados por compromissos familiares. E Mugabe é o nosso tio, os dirigentes do Sudão são os nossos cunhados. E tudo isto é visto como uma grande família e, portanto, qualquer ruptura política é vista como uma coisa difícil de se imaginar.
QUAIS OS MAIORES DESAFIOS DE MOÇAMBIQUE HOJE? FOME, POBREZA, SAÚDE EDUCAÇÃO?
Acho que o maior desafio do país é o nível do pensamento, da atitude, da mentalidade. Nós temos que ser os criadores da riqueza. E se não criarmos a riqueza, não tivermos respostas nós próprios, não tivermos capacidade de iniciativa para questionar os outros, não reagir apenas quando é preciso ter uma resposta explosiva, esse é o grande desafio. Para mim, é ter a capacidade crítica, capacidade de entender os processos como processos históricos e não como essências. Hoje os moçambicanos vêem-se como... por exemplo, o simples fato de olharem-se como moçambicanos é tido como uma coisa não-histórica, a moçambicanidade é como se fosse uma marca quase biológica, uma espécie de herança genética de há séculos. Mas isso não é assim. A moçambicanidade está a ser criada ainda hoje. É um processo recente. E a maneira como se olha os heróis do passado é como se eles já fossem todos moçambicanos, no sentido de olharem a si mesmos como moçambicanos e lutarem por Moçambique. Nenhum desses heróis da resistência que lutou contra a administração colonial pensava em Moçambique. Pensava na sua região local e reivindicava uma competição, não liberdade para os povos. Eles sequer entravam em competição de classe. Eles tinham interesses divergentes em termos de exploração de recursos, das pessoas, da elite colonial. Eram conflitos de elite, não eram conflitos de resistência.
NÃO HAVIA UM SENTIMENTO DE NAÇÃO?
Alguns nem sequer pensavam nisso. Alguns tinham acesso a rotas comerciais, tinham acesso à escravatura, ao tráfico de escravos. E disputavam isso com os portugueses. E resistiam contra os portugueses no sentido de eles próprios dominarem esse tipo de comércio, de exploração de recursos. E hoje são reabilitados como heróis da resistência nacional, como moçambicanos que já há dois, três séculos se destacavam nessa luta. Não se trata de diminuir o valor dessas pessoas. O que estou questionando não é que eles tenham mérito histórico e têm que ser hoje celebrado, mas têm que ser celebrados com a verdade e não com esta reconstituição que é falseada.
MOÇAMBIQUE É BASTANTE HETEROGÊNEO DO PONTO DE VISTA ÉTNICO E TAMBÉM RELIGIOSO. COMO ISSO VAI EVOLUIR NOS PRÓXIMOS DECÊNIOS?
Aquilo que são chamados conflitos étnicos e tribais em Moçambique não têm esse peso para determinarem mudanças daquilo que é o sentido que as pessoas têm. Acho que aqui também Moçambique precisa de tempo. Esses são processos históricos que levam tempo. Não se pode pedir a governos e administrações políticas que resolvam situações que têm séculos para trás. E o que se pode dizer, e aqui eu tiro o chapéu à Frelimo, digamos, é preciso saudar o que a Frelimo fez pela consolidação dos valores nacionais acima dos valores étnicos e tribais e raciais. Eu fui parte desse processo, fui militante da Frelimo até há alguns anos, agora não sou mais. Mas reconheço que esse foi um contributo imprescindível que a Frelimo deu para esse país. E a Frelimo ainda tem um papel importante a desempenhar, no sentido de dar continuidade a processos que vão sedimentar aquilo que é o reconhecimento da moçambicanidade. Agora, do ponto de vista religioso, há um potencial conflito. O norte, que é muçulmano; o sul, que é predominantemente cristão e católico. Depende da maneira como essas tendências que hoje manipulam as religiões em geral, e neste caso a África oriental, a manipulação da religião muçulmana, como é que isso é feito. Isso é qualquer coisa que pode me preocupar sim.
EM QUE SENTIDO?
No sentido daquilo que aconteceu na Somália. Não na Somália porque aquilo não há Estado e não é um bom exemplo, mas no Quênia, Tanzânia. Manipulação para que algumas destas crenças em Moçambique se radicalizem e sejam usadas como instrumento político e militar dentro desse contexto mais internacional, em que há este conflito quase em escala planetária.
E A FRELIMO TEM DOMINADO BEM O ASSUNTO OU SÃO OS INTERESSES DAS RELIGIÕES QUE SE SOBREPÕEM POR VEZES E INFLUENCIAM OS PARTIDOS?
A Frelimo começou como uma frente de libertação muito dominada por aquilo que era gente de formação católica e cristã. E ainda hoje é. Mas o que a Frelimo tem feito é se esforçado para incorporar, e não antagonizar outras forças religiosas e regionais. Isso tem sido feito.
ENTIDADES COMO A CPLP ESTÃO DE FATO INTEGRANDO OS PAÍSES?
Não... a um certo nível, sim. Em relação à CPLP, acho que há uma certa dificuldade da instituição definir-se, demarcar-se, afirmar-se. Ela é pouco visível. Pontualmente acho que há programas que estão caminhando razoavelmente bem. Mas, no conjunto, acho que não espero muito. E há uma certa lusofonia que foi contestada, e acho que corretamente, que era protagonizada por essa CPLP. Moçambique sempre teve alguma reserva de que lusofonia estamos a falar, que tipo de irmandade estamos a tentar criar. E isso foi saudável, alguém a questionar no princípio. Estamos a falar da mesma coisa todos nós, não é? E há coisas que não se pode pedir. Não são os governos, não são as vias institucionais que vão resolver. Em nível empresarial, por exemplo, agora começa a haver algum interesse e alguma troca de serviços entre editoras. Livros. É uma coisa relativamente recente. Há editoras no Brasil que se interessam em publicar coisas dos africanos e coisas dos portugueses. Nós somos publicados em Portugal e somos disputados por editoras de Portugal e do Brasil etc. E isso não se pode pedir que seja a CPLP. Isso é algo que se resolve ao nível empresarial. Há outras dinâmicas que caminham por si e não podem ser substituídas por nada. Já se tentou editar livros por razões de solidariedade. Ok. Isso tem o seu espaço, mas não resolve, não pode substituir aquilo que são os circuitos montados para a circulação dos discos e dos livros.
COMO ESTÁ A RECEPTIVIDADE AOS SEUS LIVROS NO BRASIL?
Sim, há receptividade. É visível. Eu trabalhava com uma editora e mudei e a partir daí foi muito claro que os meus livros passaram a ser mais conhecidos, mais publicados, mais divulgados e acho que isso hoje corre bastante bem.
HOUVE INFLUÊNCIA DA LITERATURA BRASILEIRA NO SEU TRABALHO?
Enorme, enorme. Muito grande. Não só no meu, mas na minha geração, na geração anterior à minha. Agora, infelizmente isso piorou. Hoje ninguém conhece o que está se fazendo no Brasil. Exceto as novelas. Mas ao nível literário pouca gente conhece o que se está fazendo. Não chega, não chega.
QUAIS AUTORES LHE INFLUENCIARAM?
Muitos. Fui muito marcado pela poesia porque eu sou filho de um poeta. O que forrava a minha casa era estantes de poesias. Mas se eu posso destacar alguém...Adélia Prado, Guimarães Rosa, Drummond de Andrade, João Cabral de Mello e Neto, Lins do Rêgo, Manuel Bandeira...são muitos mesmo.
AS NOVELAS BRASILEIRAS SÃO MUITO PRESENTES NOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA E COMEÇAM A INFLUENCIAR O JEITO DE SE FALAR, DE SE VESTIR. ISSO É UMA INVASÃO CULTURAL? É RUIM?
É, mas nós queremos...(risos)...
COMO AVALIA A PRESENÇA DA CULTURA BRASILEIRA VIA TELEVISÃO?
Acho que é desbalanceado, porque há uma presença hegemônica a outras presenças que nós queríamos do Brasil e não as temos. Se tivéssemos a presença de outras coisas, por exemplo, seriados que são de maior qualidade, minisséries brasileiras, cinema brasileiro que hoje tem bastante qualidade, música brasileira de maior qualidade. Não passa. Portanto há ali um filtro que só deixa passar um certo tipo de coisas. E acho que isso é que é perigoso. Não sou contra as telenovelas. Acho que muitas delas têm uma qualidade duvidosa, para dizer a verdade, do ponto de vista artístico. Mas também elas melhoraram muito. Elas são bem feitas, são bem produzidas, os atores brasileiros são muito bons, há uma capacidade de realização muito boa. E portanto o produto tem qualidade. Desse ponto de vista enquanto produto de sedução funciona muito bem. O que faz falta é que haja outras coisas, que nós conheçamos outros brasis, que não é só aquele.
HÁ O RISCO DE UM DIA O BRASIL SER ACUSADO DE FAZER IMPERIALISMO CULTURAL?
Não é o Brasil. É Globo. São certos canais no Brasil que produzem, produzem em nome do Brasil. E em certa altura o risco é esse. Nós pensarmos que o Brasil é aquele, confundir o Brasil com aquilo. De maneira que aqui já houve, antes da independência, o Brasil já estava aqui, pelas raízes culturais etc. Roberto Carlos nas cidades, nas zonas suburbanas, principalmente, era um ídolo. Ele era um rei aqui também. E Roberta Miranda e as duplas sertanejas. Mas não digo que isso é mal, tem o seu cabimento. Mas depois se se perguntarem por Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, já era um pequeno núcleo que tinha um canal privilegiado, uma relação privilegiada com o Brasil que conseguia ter esse laço. Portanto o que há aqui é falta de pluralidade. Não temos uma visão plural, composta dos diferentes produtores de cultura do Brasil.
ALGO QUE CHAMA A ATENÇÃO NOS SEUS LIVROS É QUE OS PERSONAGENS SÃO NEGROS...
Quase todos.
...ISSO É DELIBERADO OU AS HISTÓRIAS VÊM NATURALMENTE COM OS PERSONAGENS NEGROS?
Essas coisas acontecem porque fluem naturalmente ou é falso. E isso nota-se logo quando se lê o texto. O texto não pode mentir nesse aspecto. É uma mentira que não mente. Eu acho que a vivência que eu tive, e de alguns outros brancos moçambicanos, mulatos moçambicanos, de indianos moçambicanos, foi de tal maneira simbiótica...eu nasci numa cidade em que essas coisas estavam muito misturadas. A segunda língua que eu falei na minha vida era uma língua africana, uma língua banto. E, portanto, ali eu recolhi. Muito do meu imaginário começou ali a ser forjado...não faço reivindicação de que tenho um imaginário negro, não é isso, mas não sei exatamente o que é um imaginário negro, mas é africano sim, sem dúvida. É mestiçado e quando me vejo como uma raça, tenho que fazer um esforço. Tenho que afinar a minha visão para me ver como uma raça.
QUANDO SE FALA EM LITERATURA MOÇAMBICANA NO BRASIL, O NOME É MIA COUTO. COMO ESTÁ A LITERATURA MOÇAMBICANA HOJE. HÁ NOVOS AUTORES SURGINDO, COM POTENCIAL PARA CONQUISTAR MERCADOS FORA DE MOÇAMBIQUE?
Há outros nomes, mas que acho que já estavam surgidos quando eu comecei. São da minha geração e tem todo o mérito para serem conhecidos. E devem ser conhecidos. Esse processo está começando agora. Há mais moçambicanos que estão chegando e estão sendo traduzidos. Mas nomes de jovens na literatura é que não estão surgindo. Acho que Moçambique está a pagar o preço destes 16 anos de guerra civil em que não houve escola. Houve uma ruptura. Não houve quem criasse esse sentimento de amor pela escrita, pelo livro. Houve uma espécie de um deserto e que agora se repercute em nós.
O QUE ESSA ELEIÇÃO REPRESENTA PARA A DEMOCRACIA DE MOÇAMBIQUE?
A democracia...Acho que nos habituamos a ver a democracia em Moçambique como uma coisa que é feita com vários caminhos. O caminho desta democracia parlamentar, com essa votação por delegação política em alguém que nos representa é uma coisa relativamente recente. Moçambique viveu 33 anos de independência e metade desse período foi feito sem democracia. Foi feito com regime de partido único. Curiosamente, havia durante esse regime algumas instituições, vamos dizer assim, que funcionavam. Principalmente ao nível de poder popular, poder de base. Funcionavam com nível de envolvimento e participação que hoje já não ocorre. Não estou a fazer a defesa do regime monopartidário. Estou a dizer que, para avaliar o regime da democracia, a possibilidade de participação das pessoas naquilo que são seus assuntos de interesse não podem ser medidos apenas por este parâmetro. De qualquer maneira, acho que os moçambicanos querem este caminho, querem o caminho da democracia formal, da representação partidária. E isso ainda não foi conseguido. É um processo, e agora isso implica que o partido no poder tem que ter oposição. E essa oposição tem que ser criada, tem que haver um processo de fundamentar isso que são forças da oposição. E isso ainda está a acontecer em Moçambique.
NAS ELEIÇÕES ANTERIORES HOUVE ÍNDICE DE ABSTENÇÃO ALTÍSSIMO, ACIMA DE 70%. O QUE EXPLICARIA ISSO? UM DESENCANTO? FALAM QUE AS ELEIÇÕES ERAM REALIZADAS NO PERÍODO DAS CHUVAS E AS PESSOAS NÃO IAM VOTAR, QUE AS DECLARAÇÕES DA RENAMO DE QUE O PROCESSO ERA CORRUPTO E POR ISSO NÃO VALERIA A PENA VOTAR TAMBÉM TIVERAM UM FORTE IMPACTO NEGATIVO NA POPULAÇÃO.
Há sempre várias explicações. Algumas estão ditas por si. Um país como este não pode ter eleições no período das chuvas. Isso parece-me uma coisa do domínio do absurdo, mas este país não pode ter eleições onde elas depois não são realizadas. Depois há outras razões. Há razões... Não é um desencanto, mas as pessoas antecipadamente sabem quem vai ganhar e, portanto, não se sentem motivadas para essa disputa, para participar nessa escolha. E quando eu digo antecipadamente sabem quem vai ganhar, não estou a adotar o discurso da Renamo, que diz que as coisas já estão todas cozinhadas. Mas, de fato, a Frelimo tem um domínio absurdo sobre o que são as zonas rurais e as zonas urbanas. No princípio, logo a seguir à guerra civil, ao fim da guerra civil, a Renamo tinha ainda uma presença expressiva nas zonas rurais, aquilo que eram as autoridades tradicionais, os líderes locais, tinha uma ligação filial, de fildelidade com a Renamo. Isso foi sendo perdido e hoje a Renamo não representa nada.
O QUE ESSE DOMÍNIO TÃO FORTE DA FRELIMO REPRESENTA NA VIDA DO PAÍS? É POSITIVO, É NEGATIVO? SERÃO NECESSÁRIAS ALGUMAS GERAÇÕES PARA QUE AS PESSOAS PASSEM A ACREDITAR QUE O VOTO DELAS FAZ DIFERENÇA?
Sim. As coisas não acontecem porque historicamente não tem que acontecer de uma certa maneira. Acho que a Frelimo representou, e representa ainda hoje, a força que é capaz de criar a nação. Esta é uma nação jovem, é uma nação em projeto. Ela está sendo formada. Se o grande objetivo deste país é ter estabilidade, é ter uma unidade nacional para conseguir depois outras coisas, então provavelmente é preciso que haja um período como este que estamos atravessando para se criar os fundamentos, as fundações de uma nação nova. Essa é a razão principal pela qual as pessoas não votam tanto nos outros partidos. Evidente que também é um cenário que se repete muito em África. Aquilo que são as campanhas eleitorais contam apenas uma pequena percentagem, contam aquilo que são a criação de programas, o componente ideológico. Porque depois muito do que é feito para captação de simpatias é feito pelo fenômeno de troca de influência, pela distribuição de facilidades e cargos etc. Acontece também na América Latina, em todo o mundo. Não é uma coisa exclusiva nossa.
MOÇAMBIQUE É APONTADO COMO CASO DE SUCESSO EM TERMOS DE ESFORÇO PARA REDUÇÃO DA POBREZA. RECEBE MUITA AJUDA INTERNACIONAL. MAS JÁ SE OBSERVA UM FRACASSO OU O NÃO-SUCESSO DE VÁRIOS PROGRAMAS. MUITA GENTE DIZ QUE HÁ PROBLEMAS COM OS PROGRAMAS, MAS AS NAÇÕES DOADORAS TAMBÉM TÊM DIFICULDADE EM ADMITIR QUE FALHARAM. NÃO TERIAM A FORÇA POLÍTICA OU O DESEJO DE CORTAR PROGRAMAS IMPORTANTES QUE NA PONTA VÃO ACABAR AFETANDO A POPULAÇÃO. COMO SE SAI DESSE DILEMA?
Acho que, em grande parte, é um falso dilema. Porque o olhar sobre a África sempre foi o olhar entre aquilo que era o olhar completamente negativo e o completamente positivo. Deslumbrado e desencantado. África era vista sempre assim: de repente era um inferno, de repente era um paraíso. De repente era o regresso daquilo que é o sentimento de ligação com a natureza, de harmonia com o tempo. De repente é o olhar no sentido inverso. Mas nós também estamos a ser punidos por essa alternância de visões, que era a visão cor-de-rosa que noticiava Moçambique. Moçambique era visto como um bom aplicador de fórmulas. Essas fórmulas vinham de fora, não foram fabricadas aqui em Moçambique. E essa visão era uma visão disfarçada, que não correspondia à realidade. Mesmo quando ela era muito cor-de-rosa, muito positiva: Moçambique é o grande exemplo. Moçambique nunca foi esse grande exemplo. E o meu receio é que se caia no exemplo oposto. De repente Moçambique se converte num paradigma do mau exemplo, do incapaz. É preciso entender que esses programas, essas metas são feitos por nós sabemos quem. Banco Mundial, Fundo Monetário internacional, que depois recapitulou as coisas e põe esses são os grandes temas: a redução da pobreza, a boa governação, transparência etc. E sem eu querer questionar isso, a verdade é que não se permite que esses governos sejam avaliados por um programa interno, por uma agenda própria que eles contrem. Controem em consonância com o que são os valores dos doadores. Tudo bem, eu aceito isso, uma vez que eles se intitulam a si próprios como doadores. Mas eu acho que não se dá nem essa oportunidade e nem tempo para medir coisas que são impossíveis de serem feitas nesse curto espaço de tempo. Há nações européias que demoraram centenas de anos a fazerem aquilo que se pede agora que Moçambique faça em 10, 15, 20 anos.
O QUE O DOMÍNIO DA FRELIMO FAZ COM QUE A VIDA INTELECTUAL AQUI EM MOÇAMBIQUE. DIZEM QUE A FRELIMO DOMINA O QUE É A HISTÓRIA MOÇAMBICANA. É A DONA DA HISTÓRIA.
A Frelimo faz o que todas as forças políticas que são vencedoras fazem. Quem escreve a história são os vencedores. A Frelimo venceu a luta armada, a libertação nacional e criou aquilo que são os mitos fundadores da nação. Teve esse grande privilégio. Eu acho que, historicamente, de novo eu volto a este ponto, historicamente é preciso dar essa possibilidade. Porque os mitos fundadores da nação, como os da nação portuguesa, foram criados há séculos e séculos atrás. Do Brasil também. E se vamos questioná-los agora, alguns deles têm pouco fundamento histórico, tem pouca veracidade histórica, não é? Então a Frelimo teve que inventar uma história para o país, teve que sugerir esquecimentos. Sobretudo não é aquilo que é reivindicado como memória, o mais importante é aquilo que a Frelimo sugere que seja esquecido do passado. E isso é, digamos, nós temos que perceber que não há uma grande espaço de manobra para contestar isso agora. E isso vai sendo contestado à medida que há, que se criam elites que são capazes depois de terem estofo, bagagem para criar outras leituras do que foi o passado. Mas note que há uma coisa: estou insistindo sempre nisso porque essa leitura da história passada foi falseada em toda a África e foi falseada no sentido terrível de tornar África sempre um objeto vitimizado. África nunca foi sujeito de nada, é como se fosse, digamos assim, aquilo que é a retração daquela idéia fácil de que o passado era um passado harmonioso, a África vivia numa situação de paraíso, até a chegada do colonizador. Os africanos estavam todos sentados e reunidos à volta de uma mesma fogueira, à sombra de uma mesma árvore. Isso nunca foi verdade. África sempre viveu com conflitos internos, com elites que participaram na escravatura, participaram com cumplicidade no colonialismo, na escravatura e nos grandes momentos de sofrimento deste país. E o que está a acontecer hoje é só o prolongamento deste passado. As elites de hoje estão fazendo aquilo que essas outras elites fizeram no passado. Mas essa idéia de uma história dinâmica, com conflitos internos, não passa. Foi apagada em nome desta outra idéia de uma África mitológica, mistificada.
E NESTE CONTEXTO QUAL É O PAPEL DO MIA COUTO?
O que eu estou fazendo como escritor e como cidadão, onde eu posso ter intervenção, é alertar que estamos construindo uma mentira. Essa mentira algumas vezes é necessária, historicamente, porque há mentiras que, por consenso, dizemos: ok, vamos aceitar esta mentira à volta de um personagem, de um herói que nós queremos identificar e que é importante no sentido de criar valores morais etc. Portanto, é uma mentira negociada. Mas há outras mentiras que são fortemente inibidoras, nos paralisam e uma delas é esta que eu estava a dizer: a recriação de um passado mistificado é uma coisa terrível.
OS JOVENS EM MOÇAMBIQUE, NAS ZONAS URBANAS E OS MAIS ESTUDADOS, SENTEM-SE PARALISADOS. E A INCAPACIDADE DO GOVERNO DE CRIAR EMPREGO E RENDA LEVA A UM NÍVEL DE TENSÃO SOCIAL QUE PARECE UMA BOMBA RELÓGIO.
Sem dúvida. Essas tensões estão presentes e nós fomos surpreendidos, há ano e meio atrás, com uma revolta popular na cidade de Maputo quando foi feito o aumento dos preços dos transportes públicos. E isso está presente. Não creio que isso aconteça depois sozinho porque as pessoas acumularam a frustração. Isso é um território onde outros podem fazer alguma manipulação política e criar focos de conflito. Eles não procedem sozinhos dessa maneira por acumulação simples de miséria. Também há uma coisa que é preciso dizer com justiça: as pessoas esperam sempre que o governo faça. A capacidade de ter iniciativa, de criar respostas com movimentos sociais, com caminhos alternativos está também paralisada. Estes jovens estão paralisados interiormente e do ponto de vista daquilo que é a sua cultura. Porque aqui é assim: a relação com a política é vista como uma relação de familiaridade. O presidente é o nosso grande pai, os grandes chefes são os nossos tios, a nossa família. E nós pedimos ao pai que olhe por nós. É uma relação...qualquer reunião que vocês assistam, pública, as pessoas dirigem-se para quem está a dirigir a reunião, os processos políticos, quem tem controle dos processos políticos, é tido como um grande pai. É uma relação de parentesco. E isto liga-se com aquilo que vos falei antes, que é este sentimento de familiaridade. África é uma grande família, em África estamos nós todos ligados por compromissos familiares. E Mugabe é o nosso tio, os dirigentes do Sudão são os nossos cunhados. E tudo isto é visto como uma grande família e, portanto, qualquer ruptura política é vista como uma coisa difícil de se imaginar.
QUAIS OS MAIORES DESAFIOS DE MOÇAMBIQUE HOJE? FOME, POBREZA, SAÚDE EDUCAÇÃO?
Acho que o maior desafio do país é o nível do pensamento, da atitude, da mentalidade. Nós temos que ser os criadores da riqueza. E se não criarmos a riqueza, não tivermos respostas nós próprios, não tivermos capacidade de iniciativa para questionar os outros, não reagir apenas quando é preciso ter uma resposta explosiva, esse é o grande desafio. Para mim, é ter a capacidade crítica, capacidade de entender os processos como processos históricos e não como essências. Hoje os moçambicanos vêem-se como... por exemplo, o simples fato de olharem-se como moçambicanos é tido como uma coisa não-histórica, a moçambicanidade é como se fosse uma marca quase biológica, uma espécie de herança genética de há séculos. Mas isso não é assim. A moçambicanidade está a ser criada ainda hoje. É um processo recente. E a maneira como se olha os heróis do passado é como se eles já fossem todos moçambicanos, no sentido de olharem a si mesmos como moçambicanos e lutarem por Moçambique. Nenhum desses heróis da resistência que lutou contra a administração colonial pensava em Moçambique. Pensava na sua região local e reivindicava uma competição, não liberdade para os povos. Eles sequer entravam em competição de classe. Eles tinham interesses divergentes em termos de exploração de recursos, das pessoas, da elite colonial. Eram conflitos de elite, não eram conflitos de resistência.
NÃO HAVIA UM SENTIMENTO DE NAÇÃO?
Alguns nem sequer pensavam nisso. Alguns tinham acesso a rotas comerciais, tinham acesso à escravatura, ao tráfico de escravos. E disputavam isso com os portugueses. E resistiam contra os portugueses no sentido de eles próprios dominarem esse tipo de comércio, de exploração de recursos. E hoje são reabilitados como heróis da resistência nacional, como moçambicanos que já há dois, três séculos se destacavam nessa luta. Não se trata de diminuir o valor dessas pessoas. O que estou questionando não é que eles tenham mérito histórico e têm que ser hoje celebrado, mas têm que ser celebrados com a verdade e não com esta reconstituição que é falseada.
MOÇAMBIQUE É BASTANTE HETEROGÊNEO DO PONTO DE VISTA ÉTNICO E TAMBÉM RELIGIOSO. COMO ISSO VAI EVOLUIR NOS PRÓXIMOS DECÊNIOS?
Aquilo que são chamados conflitos étnicos e tribais em Moçambique não têm esse peso para determinarem mudanças daquilo que é o sentido que as pessoas têm. Acho que aqui também Moçambique precisa de tempo. Esses são processos históricos que levam tempo. Não se pode pedir a governos e administrações políticas que resolvam situações que têm séculos para trás. E o que se pode dizer, e aqui eu tiro o chapéu à Frelimo, digamos, é preciso saudar o que a Frelimo fez pela consolidação dos valores nacionais acima dos valores étnicos e tribais e raciais. Eu fui parte desse processo, fui militante da Frelimo até há alguns anos, agora não sou mais. Mas reconheço que esse foi um contributo imprescindível que a Frelimo deu para esse país. E a Frelimo ainda tem um papel importante a desempenhar, no sentido de dar continuidade a processos que vão sedimentar aquilo que é o reconhecimento da moçambicanidade. Agora, do ponto de vista religioso, há um potencial conflito. O norte, que é muçulmano; o sul, que é predominantemente cristão e católico. Depende da maneira como essas tendências que hoje manipulam as religiões em geral, e neste caso a África oriental, a manipulação da religião muçulmana, como é que isso é feito. Isso é qualquer coisa que pode me preocupar sim.
EM QUE SENTIDO?
No sentido daquilo que aconteceu na Somália. Não na Somália porque aquilo não há Estado e não é um bom exemplo, mas no Quênia, Tanzânia. Manipulação para que algumas destas crenças em Moçambique se radicalizem e sejam usadas como instrumento político e militar dentro desse contexto mais internacional, em que há este conflito quase em escala planetária.
E A FRELIMO TEM DOMINADO BEM O ASSUNTO OU SÃO OS INTERESSES DAS RELIGIÕES QUE SE SOBREPÕEM POR VEZES E INFLUENCIAM OS PARTIDOS?
A Frelimo começou como uma frente de libertação muito dominada por aquilo que era gente de formação católica e cristã. E ainda hoje é. Mas o que a Frelimo tem feito é se esforçado para incorporar, e não antagonizar outras forças religiosas e regionais. Isso tem sido feito.
ENTIDADES COMO A CPLP ESTÃO DE FATO INTEGRANDO OS PAÍSES?
Não... a um certo nível, sim. Em relação à CPLP, acho que há uma certa dificuldade da instituição definir-se, demarcar-se, afirmar-se. Ela é pouco visível. Pontualmente acho que há programas que estão caminhando razoavelmente bem. Mas, no conjunto, acho que não espero muito. E há uma certa lusofonia que foi contestada, e acho que corretamente, que era protagonizada por essa CPLP. Moçambique sempre teve alguma reserva de que lusofonia estamos a falar, que tipo de irmandade estamos a tentar criar. E isso foi saudável, alguém a questionar no princípio. Estamos a falar da mesma coisa todos nós, não é? E há coisas que não se pode pedir. Não são os governos, não são as vias institucionais que vão resolver. Em nível empresarial, por exemplo, agora começa a haver algum interesse e alguma troca de serviços entre editoras. Livros. É uma coisa relativamente recente. Há editoras no Brasil que se interessam em publicar coisas dos africanos e coisas dos portugueses. Nós somos publicados em Portugal e somos disputados por editoras de Portugal e do Brasil etc. E isso não se pode pedir que seja a CPLP. Isso é algo que se resolve ao nível empresarial. Há outras dinâmicas que caminham por si e não podem ser substituídas por nada. Já se tentou editar livros por razões de solidariedade. Ok. Isso tem o seu espaço, mas não resolve, não pode substituir aquilo que são os circuitos montados para a circulação dos discos e dos livros.
COMO ESTÁ A RECEPTIVIDADE AOS SEUS LIVROS NO BRASIL?
Sim, há receptividade. É visível. Eu trabalhava com uma editora e mudei e a partir daí foi muito claro que os meus livros passaram a ser mais conhecidos, mais publicados, mais divulgados e acho que isso hoje corre bastante bem.
HOUVE INFLUÊNCIA DA LITERATURA BRASILEIRA NO SEU TRABALHO?
Enorme, enorme. Muito grande. Não só no meu, mas na minha geração, na geração anterior à minha. Agora, infelizmente isso piorou. Hoje ninguém conhece o que está se fazendo no Brasil. Exceto as novelas. Mas ao nível literário pouca gente conhece o que se está fazendo. Não chega, não chega.
QUAIS AUTORES LHE INFLUENCIARAM?
Muitos. Fui muito marcado pela poesia porque eu sou filho de um poeta. O que forrava a minha casa era estantes de poesias. Mas se eu posso destacar alguém...Adélia Prado, Guimarães Rosa, Drummond de Andrade, João Cabral de Mello e Neto, Lins do Rêgo, Manuel Bandeira...são muitos mesmo.
AS NOVELAS BRASILEIRAS SÃO MUITO PRESENTES NOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA E COMEÇAM A INFLUENCIAR O JEITO DE SE FALAR, DE SE VESTIR. ISSO É UMA INVASÃO CULTURAL? É RUIM?
É, mas nós queremos...(risos)...
COMO AVALIA A PRESENÇA DA CULTURA BRASILEIRA VIA TELEVISÃO?
Acho que é desbalanceado, porque há uma presença hegemônica a outras presenças que nós queríamos do Brasil e não as temos. Se tivéssemos a presença de outras coisas, por exemplo, seriados que são de maior qualidade, minisséries brasileiras, cinema brasileiro que hoje tem bastante qualidade, música brasileira de maior qualidade. Não passa. Portanto há ali um filtro que só deixa passar um certo tipo de coisas. E acho que isso é que é perigoso. Não sou contra as telenovelas. Acho que muitas delas têm uma qualidade duvidosa, para dizer a verdade, do ponto de vista artístico. Mas também elas melhoraram muito. Elas são bem feitas, são bem produzidas, os atores brasileiros são muito bons, há uma capacidade de realização muito boa. E portanto o produto tem qualidade. Desse ponto de vista enquanto produto de sedução funciona muito bem. O que faz falta é que haja outras coisas, que nós conheçamos outros brasis, que não é só aquele.
HÁ O RISCO DE UM DIA O BRASIL SER ACUSADO DE FAZER IMPERIALISMO CULTURAL?
Não é o Brasil. É Globo. São certos canais no Brasil que produzem, produzem em nome do Brasil. E em certa altura o risco é esse. Nós pensarmos que o Brasil é aquele, confundir o Brasil com aquilo. De maneira que aqui já houve, antes da independência, o Brasil já estava aqui, pelas raízes culturais etc. Roberto Carlos nas cidades, nas zonas suburbanas, principalmente, era um ídolo. Ele era um rei aqui também. E Roberta Miranda e as duplas sertanejas. Mas não digo que isso é mal, tem o seu cabimento. Mas depois se se perguntarem por Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, já era um pequeno núcleo que tinha um canal privilegiado, uma relação privilegiada com o Brasil que conseguia ter esse laço. Portanto o que há aqui é falta de pluralidade. Não temos uma visão plural, composta dos diferentes produtores de cultura do Brasil.
ALGO QUE CHAMA A ATENÇÃO NOS SEUS LIVROS É QUE OS PERSONAGENS SÃO NEGROS...
Quase todos.
...ISSO É DELIBERADO OU AS HISTÓRIAS VÊM NATURALMENTE COM OS PERSONAGENS NEGROS?
Essas coisas acontecem porque fluem naturalmente ou é falso. E isso nota-se logo quando se lê o texto. O texto não pode mentir nesse aspecto. É uma mentira que não mente. Eu acho que a vivência que eu tive, e de alguns outros brancos moçambicanos, mulatos moçambicanos, de indianos moçambicanos, foi de tal maneira simbiótica...eu nasci numa cidade em que essas coisas estavam muito misturadas. A segunda língua que eu falei na minha vida era uma língua africana, uma língua banto. E, portanto, ali eu recolhi. Muito do meu imaginário começou ali a ser forjado...não faço reivindicação de que tenho um imaginário negro, não é isso, mas não sei exatamente o que é um imaginário negro, mas é africano sim, sem dúvida. É mestiçado e quando me vejo como uma raça, tenho que fazer um esforço. Tenho que afinar a minha visão para me ver como uma raça.
QUANDO SE FALA EM LITERATURA MOÇAMBICANA NO BRASIL, O NOME É MIA COUTO. COMO ESTÁ A LITERATURA MOÇAMBICANA HOJE. HÁ NOVOS AUTORES SURGINDO, COM POTENCIAL PARA CONQUISTAR MERCADOS FORA DE MOÇAMBIQUE?
Há outros nomes, mas que acho que já estavam surgidos quando eu comecei. São da minha geração e tem todo o mérito para serem conhecidos. E devem ser conhecidos. Esse processo está começando agora. Há mais moçambicanos que estão chegando e estão sendo traduzidos. Mas nomes de jovens na literatura é que não estão surgindo. Acho que Moçambique está a pagar o preço destes 16 anos de guerra civil em que não houve escola. Houve uma ruptura. Não houve quem criasse esse sentimento de amor pela escrita, pelo livro. Houve uma espécie de um deserto e que agora se repercute em nós.


8 comentários:
Olá! Venho acompanhando seu blog nessa aventura pela África. Vou reproduzir essa entrevista no blog do Café com Letras (com os devidos créditos, claro) porq o Mia é um dos meus escritores favoritos.
Bjs e parabéns!
Juliana,
Obrigado por prestigiar o diário.
Será um prazer ter a entrevista reproduzida no seu blog.
Apareça sempre.
Blz! Já tá lá. Vou aproveitar e colocar no meu também. Adorei a entrevista! Cara, que honra hein!!!
muito bom!
(não achou dificílimo editar o que ele disse? quando eu o entrevistei, também resolvi transcrever quase tudo na íntegra. o cara não diz uma bobagem).
Mia Coto é um escritor lusofono de enorme expressão e foi muito bem aproveitada a oportunidade de o entrevistar. Gostamos de acompanhar o Diario de Africa.
Abraço
Brasil em força para Moçambique, caso contrário não haverá escritores em português nem leitores, dentro de muito pouco tempo.
Está tudo preparado para Moçambique se tornar rapidamente mais um país anglófono.
O tuga sozinho já está cansado!
Eu sou argentina e estudo português. Desde que conheceu Mia Couto não deixo de procurar saber mais dele. Muito boa a estrevista e gosto muito desse escritor. Parabéns.
Gente, adoro esse escritor. parabéns por ter conseguido a entrevista. Vou acompanhar o blog por que adoro o tema! bjbj
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